Um laudo laboratorial é cheio de abreviações — faixas, relações, nomes de métodos e siglas que quase nunca vêm com uma explicação. Este glossário define 40 dos termos que você tem mais chance de encontrar em uma folha de resultados ou em um pedido de exame, em linguagem simples e sem jargão. É uma leitura de apoio para ajudar você a acompanhar a conversa com o seu médico, não um substituto dela — leia sempre os seus próprios resultados com o profissional que os solicitou.
Glossário de exames de laboratório
Definições em linguagem simples de 40 termos que você vai encontrar em um laudo laboratorial — dos valores de referência e da sensibilidade ao soro, ao título e aos marcadores tumorais.
A
Amostra em jejum
Sangue colhido depois de um período sem comer, em geral de 8 a 12 horas, com água liberada. O jejum estabiliza valores que a comida altera rápido, como a glicose e os triglicerídeos, deixando os resultados comparáveis. Siga sempre as instruções específicas do seu pedido de exame, já que nem todo exame precisa de jejum.
Analito
A substância específica que um exame mede na sua amostra — glicose, colesterol, um hormônio ou um anticorpo. Quando um laudo traz um resultado, o analito é aquilo que está sendo contado ou medido. Um único tubo de sangue pode servir para medir vários analitos diferentes, cada um com seu próprio método, suas unidades e seus valores de referência.
Ânion gap
Um número calculado, e não medido diretamente, obtido a partir do sódio, do cloro e do bicarbonato de um painel metabólico. Ele estima o equilíbrio das partículas com carga elétrica no sangue e ajuda o médico a esclarecer a causa de um acúmulo de ácido (acidose). Um ânion gap alto pode apontar para problemas como diabetes descompensado ou doença renal.
Autoanticorpo
Um anticorpo que, por engano, ataca os próprios tecidos do corpo em vez dos germes. Os autoanticorpos são dosados para ajudar a investigar doenças autoimunes — por exemplo, os anticorpos anti-CCP na artrite reumatoide ou os anticorpos anti-TPO na doença da tireoide. A presença deles apoia um diagnóstico, mas é interpretada junto com os sintomas, já que algumas pessoas saudáveis têm níveis baixos.
B
Biomarcador
Qualquer sinal biológico que possa ser medido — no sangue, na urina ou nos tecidos — e que reflita um processo normal, uma doença ou a resposta a um tratamento. A PCR como marcador de inflamação é um exemplo conhecido. O termo é amplo: um biomarcador pode ser uma molécula, uma contagem de células ou uma característica genética.
E
ELISA
Um tipo de imunoensaio muito usado que emprega anticorpos ligados a uma enzima e produz uma mudança de cor para detectar ou medir uma substância. O ELISA está por trás de muitos exames de anticorpos e antígenos, de infecções a hormônios. Um ELISA de triagem positivo costuma ser confirmado por um segundo método, mais específico, antes de o resultado ser considerado definitivo.
Ensaio
O procedimento de laboratório usado para detectar ou medir um analito — em essência, o próprio método do exame. Ensaios diferentes podem medir a mesma substância com química, sensibilidade e unidades distintas, e esse é um dos motivos pelos quais os resultados às vezes variam de um laboratório para outro. Quando um laudo cita um método, ele está descrevendo o ensaio por trás do número.
Especificidade
O quanto um exame libera corretamente as pessoas que não têm uma condição — um exame muito específico produz poucos falsos positivos. Exames específicos são bons para confirmar um diagnóstico, porque um resultado positivo dificilmente está errado. A triagem costuma combinar um primeiro exame sensível com um exame de confirmação específico.
F
Faixa ótima
Uma faixa mais estreita, muitas vezes divulgada no meio do bem-estar, apresentada como os valores “ideais”, e não apenas aceitáveis. Ao contrário dos valores de referência, as faixas ótimas não são padronizadas e variam de uma fonte para outra. Trate-as com cautela: um resultado dentro dos valores de referência do laboratório costuma ser considerado normal, a menos que o seu médico oriente de outra forma.
Falso negativo
Um resultado de exame que diz “não” quando a condição está, na verdade, presente. Falsos negativos podem acontecer se a amostra é colhida cedo demais, se os níveis estão abaixo do limite de detecção do exame ou se o método simplesmente deixa passar alguns casos. É por isso que um único resultado normal nem sempre descarta uma condição, sobretudo quando a suspeita é alta.
Falso positivo
Um resultado de exame que diz “sim” quando a condição está, na verdade, ausente. Como nenhum exame é perfeito, os falsos positivos aumentam quando uma condição é rara ou quando o corte de triagem é deliberadamente sensível. Um resultado de triagem positivo costuma ser reconferido com um exame de confirmação mais específico antes de se fazer qualquer diagnóstico.
Fórmula leucocitária
A parte do hemograma que separa os glóbulos brancos em seus tipos — neutrófilos, linfócitos, monócitos, eosinófilos e basófilos — em porcentagens e em números absolutos. O padrão ajuda a distinguir, por exemplo, uma infecção bacteriana de uma viral ou uma reação alérgica. Costuma ser informada junto com o hemograma completo.
H
Hemograma completo
Um dos exames de sangue mais comuns; conta as células que circulam no sangue: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, além de valores como a hemoglobina e o hematócrito. O hemograma completo rastreia anemia, infecção e problemas de coagulação em uma única amostra. Muitos hemogramas também incluem a fórmula leucocitária.
Hemólise
A ruptura dos glóbulos vermelhos, que espalha o conteúdo deles na amostra. Pode acontecer dentro do corpo ou, mais frequentemente, durante uma coleta difícil ou um manuseio brusco. A hemólise pode elevar de forma falsa marcadores como o potássio e pode obrigar a uma nova coleta, e é por isso que o laboratório sinaliza uma amostra hemolisada.
I
Icterícia
Um tom amarelado e rico em bilirrubina em uma amostra de sangue — o equivalente, no laboratório, da icterícia que se vê na pele. Uma amostra muito ictérica indica bilirrubina alta e pode interferir em algumas medições. O laboratório sinaliza a icterícia porque ela ao mesmo tempo sugere problemas no fígado ou nos glóbulos vermelhos e pode afetar a exatidão de outros resultados.
Imunoensaio
Um exame que usa anticorpos para detectar e medir um alvo específico — um hormônio, uma proteína, um medicamento ou um marcador de infecção. Como os anticorpos se ligam com força ao seu alvo, os imunoensaios conseguem encontrar quantidades muito pequenas, o que os torna a ferramenta principal na dosagem de hormônios e anticorpos. O ELISA é um formato comum. O resultado depende dos anticorpos e da calibração usados.
L
Lipemia
Um aspecto leitoso e carregado de gordura em uma amostra de sangue, em geral por causa dos triglicerídeos após uma refeição gordurosa recente ou em certas condições metabólicas. Assim como a hemólise e a icterícia, a lipemia pode interferir nas medições de laboratório e distorcer alguns resultados. É um motivo comum para o laboratório pedir uma nova amostra em jejum.
M
Marcador tumoral
Uma substância, muitas vezes uma proteína, que pode aumentar com certos tipos de câncer e é dosada no sangue — alguns exemplos são o PSA e o CEA. Os níveis também podem subir por causas benignas, por isso os marcadores tumorais são usados principalmente para monitorar uma doença já conhecida ou junto com outros exames, e não para diagnosticar um câncer sozinhos.
Meia-vida
O tempo que o nível de uma substância no sangue leva para cair pela metade. A meia-vida explica por quanto tempo um medicamento, um hormônio ou um marcador permanece no organismo e quando um exame de controle vai refletir uma mudança real. Um marcador com meia-vida curta responde rápido ao tratamento; um com meia-vida longa muda devagar.
Monoclonal
Que vem de um único clone de células e, por isso, é idêntico na estrutura. Uma banda monoclonal de proteína de anticorpo no sangue pode ser uma pista de certas doenças do sangue e é investigada mais a fundo. A mesma palavra descreve os “anticorpos monoclonais” feitos em laboratório, usados como medicamentos e como agentes de ligação dentro de muitos exames diagnósticos.
O
Osmolalidade
Uma medida de quão concentrado está um líquido — o número de partículas dissolvidas no sangue ou na urina. Reflete o equilíbrio da água e o quanto os rins conseguem concentrar a urina. O médico usa a osmolalidade para investigar distúrbios do sódio, desidratação e certos problemas hormonais, muitas vezes comparando os valores do sangue e da urina em conjunto.
P
Painel
Um grupo de exames pedidos em conjunto porque esclarecem um mesmo sistema ou uma mesma pergunta — um perfil lipídico, um painel de tireoide, um painel metabólico. Reunir marcadores relacionados dá uma imagem mais completa do que qualquer número isolado e costuma sair mais barato do que pedir cada exame separadamente. Ainda assim, cada resultado é interpretado um a um.
PCR (reação em cadeia da polimerase)
Um método que copia quantidades minúsculas de material genético milhões de vezes para que ele possa ser detectado. No diagnóstico, a PCR encontra o DNA ou o RNA de um vírus ou de uma bactéria com alta sensibilidade, e é assim que muitas infecções são confirmadas. Ela detecta a assinatura genética do micro-organismo, não a sua resposta de anticorpos a ele.
Plasma
A parte líquida do sangue com as células removidas, mas com as proteínas da coagulação preservadas, obtida ao centrifugar uma amostra colhida em um tubo com anticoagulante. Alguns exames precisam especificamente de plasma, e não de soro. A cor do tubo na sua coleta reflete de qual deles cada exame precisa, já que os dois nem sempre são intercambiáveis.
Policlonal
Que vem de muitos clones de células diferentes e, por isso, é variado na estrutura. Um aumento policlonal de anticorpos é a resposta habitual e esperada a uma infecção ou inflamação e costuma refletir um sistema imunológico saudável reagindo — ao contrário de um padrão monoclonal, que vem de um único clone e é investigado de outra forma.
R
Resultado limítrofe
Um valor que fica logo fora dos valores de referência, ou exatamente sobre um limiar de decisão, sem ser claramente anormal. Resultados limítrofes são comuns e, sozinhos, raramente significam doença. Em geral, o médico repete o exame, observa a tendência ou verifica marcadores relacionados, em vez de agir com base em um único número quase normal.
S
Sangue total
Uma amostra mantida completa, com as células e o líquido juntos e nada separado. Alguns exames — um hemograma ou uma HbA1c, por exemplo — precisam de sangue total, por isso são colhidos em um tubo que impede a coagulação e não são centrifugados. É um dos três principais estados da amostra, ao lado do soro e do plasma.
Sensibilidade
O quanto um exame identifica corretamente as pessoas que realmente têm uma condição — um exame muito sensível produz poucos falsos negativos. Exames sensíveis são ideais para triagem e para descartar uma condição, porque um resultado negativo tranquiliza. Em troca, eles podem sinalizar algumas pessoas que acabam se revelando saudáveis.
Soro
O líquido transparente que sobra depois que o sangue coagula e o coágulo é retirado — o plasma sem as proteínas da coagulação. Muitos exames bioquímicos comuns são feitos no soro, colhido em um tubo simples ou com gel. Ele é diferente do plasma, por isso o tubo e o manuseio são escolhidos de acordo com o que cada exame precisa.
Soroconversão
O momento em que os anticorpos contra um germe específico passam a ser detectáveis no sangue pela primeira vez, sinalizando que o sistema imunológico respondeu a uma infecção ou vacinação. Fazer o exame antes da soroconversão pode não detectar os anticorpos e dar um falso negativo. É por causa desse tempo que alguns exames de anticorpos são repetidos após um período de espera.
T
Teste no local de atendimento
Exames feitos à beira do leito, no consultório ou em casa, em vez de enviar a amostra para um laboratório central — uma glicemia capilar ou um teste rápido de faringite, por exemplo. Ganha-se rapidez e comodidade em troca de um pouco de precisão. Resultados que orientam decisões importantes costumam ser confirmados depois por um método de laboratório padrão.
Teste qualitativo
Um exame que dá uma resposta de sim/não ou presente/ausente, em vez de um número — por exemplo, um teste de gravidez que marca “positivo”. Os resultados qualitativos são rápidos e fáceis de usar na prática, mas não trazem nenhuma medida de quantidade. Quando a quantidade importa, usa-se em seu lugar uma versão quantitativa do mesmo exame.
Teste quantitativo
Um exame que devolve um número de verdade — uma concentração, uma contagem ou uma relação — como uma glicose de 95 mg/dL. Os resultados quantitativos permitem ao médico avaliar quão alto ou baixo está um valor, acompanhar tendências ao longo do tempo e comparar com os valores de referência, algo que um simples positivo/negativo não consegue fazer.
TFG estimada (TFGe)
A taxa de filtração glomerular estimada — um cálculo de quão bem os seus rins filtram o sangue, feito a partir da creatinina, da idade e do sexo. Informada em mL/min, é o principal número usado para classificar a função renal. Por ser uma estimativa, a TFGe é lida como uma tendência, e não como um valor exato isolado.
Título
Um resultado expresso como o quanto uma amostra pode ser diluída e ainda dar positivo — informado como uma razão, por exemplo 1:160. Títulos mais altos significam mais quantidade da substância, muitas vezes um anticorpo. Os títulos são usados para avaliar respostas imunológicas e para acompanhar se um nível está subindo ou descendo ao longo do tempo.
V
Valor basal
Seu resultado individual e normal quando você está bem, usado como ponto de referência pessoal para os próximos exames. Comparar um valor novo com o seu próprio valor basal pode revelar uma mudança importante mesmo quando os dois números estão dentro dos valores de referência da população. O valor basal importa mais para marcadores acompanhados ao longo do tempo, como os marcadores tumorais ou a função renal.
Valor crítico
Um resultado tão fora da faixa de normalidade que pode indicar perigo imediato, levando o laboratório a telefonar para o médico na mesma hora, de dia ou de noite. Alguns exemplos são um potássio muito alto ou uma glicose muito baixa. Os valores críticos são uma questão de urgência, não de diagnóstico final — eles disparam uma avaliação e uma conduta rápidas.
Valor de corte
O limiar que um exame usa para separar um “positivo” de um “negativo”, ou o normal do anormal. Onde o corte é fixado envolve um equilíbrio: um corte mais baixo capta mais casos verdadeiros, mas produz mais falsos positivos. Conhecer o valor de corte explica por que um resultado logo acima ou logo abaixo dele é tratado com cautela.
Valores de referência
A faixa de valores observada na maioria das pessoas saudáveis, impressa ao lado do seu resultado como a faixa “normal”. Costuma ser construída a partir dos 95% centrais, de modo que algumas pessoas saudáveis ficam naturalmente de fora dela. Esses valores de referência variam conforme o laboratório, o método, a idade e o sexo, e é por isso que você lê o seu resultado em comparação com a faixa do seu próprio laudo.
VHS
A velocidade de hemossedimentação mede a rapidez com que os glóbulos vermelhos se depositam no fundo de um tubo em uma hora. Uma velocidade maior é um sinal inespecífico de inflamação. A VHS é barata e simples, mas não é específica de nenhuma doença em particular, por isso é interpretada junto com os sintomas e com marcadores como a PCR.